Quando comecei a investir, o PER era o primeiro número que olhava num screener. Se estivesse abaixo de 15, a empresa era “barata”. Se estivesse acima de 25, era “cara” e passava à frente.
Estava completamente enganado. Não porque o PER não seja útil. É. Mas porque o usava sem perceber o que realmente significa, e sem ter em conta o contexto.
O que é o PER?
PER significa Price-to-Earnings Ratio, ou em português, rácio Preço/Lucro.
PER = Preço da Acção / Lucro por Acção (EPS)
Se uma empresa tem uma capitalização bolsista de 1.000 milhões de euros e ganha 50 milhões por ano, o seu PER é de 20. Na prática, o PER diz-te quantos anos de lucros estás a pagar pela empresa.
O que o PER realmente revela
PER baixo pode significar empresa potencialmente barata ou com problemas. PER alto pode significar empresa potencialmente cara ou com grande crescimento esperado. Um PER baixo pode significar que a empresa está a ser injustamente ignorada, mas também pode significar que o mercado já percebeu que os lucros vão cair.
O meu erro: comparar PERs sem contexto
Durante os primeiros anos comparava PERs sem ter em conta o sector. Olhava para um banco a PER 8 e para uma empresa tecnológica a PER 30, e concluía que o banco estava “mais barato”. O problema é que são negócios completamente diferentes. A comparação correcta é sempre dentro do mesmo sector e com o histórico da própria empresa.
Trailing PER vs. Forward PER
O Trailing PER usa os lucros dos últimos 12 meses. O Forward PER usa os lucros estimados para os próximos 12 meses. Para empresas em crescimento acelerado, o trailing PER pode ser enganoso. Olho sempre para os dois.
PEG Ratio: o PER corrigido para o crescimento
Foi Peter Lynch que popularizou o PEG Ratio: PEG = PER / Taxa de Crescimento dos Lucros. Se uma empresa tem PER de 30 mas cresce os lucros a 30% ao ano, o PEG é 1. Segundo Lynch, isso é uma avaliação razoável. Abaixo de 1, a empresa pode estar subavaliada relativamente ao seu crescimento.
Como uso o PER hoje
Comparo o PER actual com o histórico da empresa. Depois comparo com os pares do sector. Em seguida, cruzo com o crescimento esperado. Por fim, verifico a qualidade dos lucros: são reais e sustentáveis, ou inflados por itens extraordinários?
Quando o PER não serve de nada
Empresas com prejuízos, empresas cíclicas no pico do ciclo, e start-ups onde os lucros actuais são intencionalmente baixos são casos onde o PER é inútil. Para estes casos, uso outras métricas: EV/EBITDA, Price-to-Sales, ou análise de fluxos de caixa.
Conclusão
O PER é uma ferramenta útil, mas só funciona bem quando usada correctamente. Sozinho e sem contexto, pode levar-te a tomar decisões erradas. O teu trabalho é descobrir se o motivo pelo qual o PER está fora do normal já está reflectido no preço, ou não.
No IFI Premium analiso o PER e outros rácios de avaliação em detalhe nas teses mensais.













