Michael Burry, o investidor que antecipou a crise do subprime e inspirou o filme "The Big Short", voltou a dar que falar. Desta vez apontou à Alphabet, a dona da Google, por causa de uma decisão que parece apenas técnica: emitir uma obrigação a 100 anos.
Num comentário no X, Burry comparou a Alphabet à Motorola de 1997, mesmo antes de a Motorola começar a afundar. Vamos perceber o que ele quis dizer, porque é que a Alphabet se está a endividar a tão longo prazo, e o que a história da Motorola nos pode ensinar.
O comentário de Michael Burry

Burry reagiu à notícia de que a Alphabet quer emitir uma obrigação a 100 anos, algo muito raro no setor tecnológico. Lembrou que a última grande tecnológica a fazer o mesmo foi a Motorola, em 1997, e contou o que aconteceu a seguir. A Motorola, na altura uma das marcas mais valiosas dos Estados Unidos, à frente da própria Microsoft, foi perdendo importância até se tornar, hoje, a 232.ª maior empresa por capitalização, com apenas 11 mil milhões de dólares em vendas.
A ideia por trás do comentário é simples: prometer pagar uma dívida durante um século pode ser sinal de excesso de confiança no topo do ciclo.
Porque é que a Alphabet se está a endividar

A Alphabet está a reforçar o financiamento para aguentar um investimento enorme em Inteligência Artificial. Data centers, chips e capacidade de computação custam dezenas de milhares de milhões de dólares, e parte desse dinheiro vem de dívida, incluindo esta obrigação a 100 anos.
Segundo a Bloomberg, é a primeira vez que uma tecnológica emite dívida tão longa desde a Motorola, em 1997. O mercado de obrigações a 100 anos é quase todo de governos e instituições como universidades, porque prazos tão longos são arriscados para uma empresa, ainda por cima num setor que muda tão depressa. O gráfico mostra bem a pressa: o investimento dos grandes nomes da nuvem está a disparar, com a Alphabet a caminho de valores perto dos 200 mil milhões de dólares.
Há aqui uma lógica financeira. Ao fixar dinheiro a 100 anos, a Alphabet garante capital estável para uma aposta de longo prazo e passa o risco do prazo para quem compra a dívida. O problema é tanto simbólico como financeiro: comprometer-se com uma dívida a um século é assumir que se vai estar no topo durante esse tempo todo. E é exatamente aí que Burry levanta a dúvida.
A Motorola já tinha feito isto em 1997

Em 1997, a Motorola era uma das empresas mais fortes da tecnologia e líder mundial nos telemóveis, a marca do MicroTAC, um símbolo de inovação. Foi nesse ano, no auge da sua fama, que emitiu dívida com prazo a 100 anos.
A queda da Motorola

Poucos anos depois, a Nokia passou a Motorola em quota de mercado e novos concorrentes começaram a ganhar terreno. Com a chegada do iPhone, em 2007, tudo acelerou e a Motorola perdeu de vez o seu lugar nos telemóveis. O gráfico conta a história: a linha da Motorola sobe até meados dos anos 2000 e depois cai a pique, ultrapassada pela Nokia, pela Samsung e, mais tarde, pela Apple.
A lição de Burry é simples: ser o número um hoje não garante nada amanhã. Para quem investiu na Motorola a contar com a sua continuidade, aquela dívida a 100 anos acabou por ser o retrato de uma confiança que o mercado não confirmou.
As previsões polémicas de Burry

Convém não esquecer uma coisa. Burry usa no X o nome "Cassandra Unchained", a tal personagem da mitologia grega que acertava nos avisos mas nunca era ouvida. E o próprio Burry já fez muitas previsões que deram para o torto. Disse "Sell" no início de 2023, pouco antes de uma das maiores subidas do mercado, e repetiu vezes sem conta que a história anda sempre às voltas (2000, 2008, 2023). Ou seja, esta comparação entre a Alphabet e a Motorola é uma provocação que faz pensar, não uma certeza.
O que isto significa para um investidor
Uma obrigação a 100 anos não é, por si só, um sinal de queda. É uma decisão de financiamento que pode fazer todo o sentido para pagar a aposta da Alphabet na IA. Mas o aviso de Burry tem um fundo real: o de tratar a força de hoje como se fosse garantida durante um século, num setor onde a mudança é a regra.
A grande diferença para a Motorola é que a Alphabet não é só um produto, como o telemóvel. É um conjunto de negócios: Pesquisa, YouTube, Android, Cloud e IA. Isso torna a comparação imperfeita. Só que a IA é, ela própria, a maior força de mudança da próxima década, e tanto pode reforçar como ameaçar a posição da Google.
A pergunta certa não é "vai a Alphabet cair como a Motorola?". É outra: estará o mercado a pagar pela Alphabet como se o seu domínio fosse para sempre? É essa conta, preço contra risco de mudança, que decide se a ação é uma oportunidade ou uma armadilha.
É este tipo de análise, separar o barulho das notícias da tese de investimento, que fazemos em detalhe no IFI Premium, com a avaliação completa da Alphabet, o preço-alvo e a decisão concreta para o portefólio.
Este artigo é apenas informativo e reflete opiniões pessoais. Não constitui, em caso algum, recomendação de investimento.













